sexta-feira, outubro 22, 2004

Mais disto NÃO!...

“Está aí – na Estupidez – o escolho primário e omnipresente para uma verdadeira reforma do nosso país. A Estupidez «absorve-nos, suga-nos, arruína-nos, mata-nos», como clamava Gusmão da “fradaria”. E quanta serenidade de cariz interior, ingénuo inimigo, quanto paciência e domínio de si, – não são necessários para a combater!”

António Sérgio


Nos últimos vinte anos, a melhoria das condições económicas de Castelo Branco resultou num assinalável crescimento demográfico e urbano da cidade, situação favorável ao desenvolvimento de novos equipamentos, dinâmicas e hábitos sociais e culturais. Mas em terra onde as virtudes do desenvolvimento são permanentemente avassaladas pela agenda dos agentes políticos, permanece a insensibilidade em áreas indissociáveis da evolução civilizacional, e que acabam por demonstrar o défice de consciência cívica da população da cidade, cujo indicador mais claro são as suas vivências sociais e culturais.

Na década de 1980, em que Castelo Branco se expandiu em força para a periferia, imperava na construção civil a lei da selva, o que habituou engenheiros e empreiteiros a criarem as suas próprias regras para lucrarem à custa do caos urbanístico e da especulação imobiliária. E tudo com a conivência das autoridades responsáveis pelo planeamento e fiscalização de obras. A desordem só viria a ter termo já na década de 1990 com os Planos de Pormenor e o Plano Director Municipal, o que não impediu que muitos erros continuassem a surgir, devido sobretudo a duvidosos compromissos assumidos no passado e que hoje comprometem o crescimento equilibrado do perímetro urbano da cidade.

Ao longo da história são comuns os exemplos do desinteresse da população de Castelo Branco pelo seu património natural, histórico e cultural. O mais gritante remonta a 1835, ano em que os próprios arcos da muralha do castelo foram desmantelados e a sua pedra aproveitada para obras de manifesta utilidade colectiva. Quatro anos depois, os mesmos blocos eram vendidos ao desbarato em hasta pública. Actualmente, serve de referência o que está a acontecer na parte sul da colina do castelo, onde edifícios em série e sem traços arquitectónicos relevantes vão trepando calmamente os trilhos outrora vedados à barbárie dos invasores.

Os arautos defensores da economia sem regras não se importam de enriquecer à força dos valores da sua cidadania. Empresários influentes e individualidades de larga responsabilidade nos destinos da cidade, cujos caprichos financeiros nada têm a ver com o interesse público, agradecem e esforçam-se para que a actualidade política, social e cultural se vá fazendo de partidarice festeira, contribuindo para o esquecimento colectivo dos assuntos que importa discutir. Tudo parece acontecer debaixo da maior tranquilidade, fruto de uma informalidade tolerada, sem que na prática pareçam haver formas de o evitar, aparte as boas intenções e o interesse que todos dizem colocar na resolução destes problemas.

A intervenção urbana no âmbito do programa Polis veio requalificar espaços degradados em Castelo Branco, dotando a urbe de modernas infra-estruturas de apoio à actividade económica, social e cultural. Mas terminadas as obras e assente a poeira, será que no futuro se pode esperar a implementação e continuidade de uma nova política urbanística e paisagística? Estarão realmente a ser geradas novas dinâmicas vivenciais nos espaços públicos agora reabilitados?

À medida que se vão concluindo as obras, e por todo o lado surgem os passeios, bancos, calçadas e jardins de pedra, vai-se confirmando que com o passar dos anos a percentagem de áreas verdes na cidade tem vindo a reduzir-se. Algo absurdo, se recordarmos que em meados da década de 1990 Castelo Branco ganhou o estatuto de cidade florida, mérito conquistado à custa de projectos que não chegaram a sair do papel. À parte a euforia popular perante o encanto dos novos jogos de luzes e de água, tudo parece pura ilusão de óptica.

Onde estão os novos espaços verdes com zonas de circulação pedonal permanente e não simples jardins ornamentais, instalados em locais fechados ou disfarçando aberrações urbanísticas? Onde estão os locais ajardinados para descanso de transeuntes e regulação da humidade no solo e no ar, funcionando como zonas privilegiadas de descompressão das manchas urbanas? Torna-se um inferno circular pelos passeios no verão, irradiando ao anoitecer o calor acumulado durante o dia. A este ritmo, à medida que se vão remexendo as entranhas de cada um dos cantinhos de Castelo Branco, cada metro quadrado de rua, praça ou avenida está condenado a ter de revestir-se com as toneladas de pedra que transbordam debaixo dos nossos pés. Onde estão as ciclovias que deveriam ser já obrigatórias nas novas avenidas? Os carros continuam a ser os móbiles que definem as grandes intervenções de fundo. Sem reduzir a dependência dos automóveis, esconde-se o problema debaixo do chão, e fala-se num transporte colectivo ecológico meramente turístico, que não interfira no funcionamento de outros operadores, o que quer dizer que não se querem alternativas menos poluentes.

As gerações futuras não têm de lamentar mais disparates urbanísticos entre os muitos cometidos nos últimos vinte anos por gente que hoje se regozija do alto da sua impunidade. Com o passar das décadas vão-se acumulando os erros e reforçando o legado de comportamento primitivista, tal como aconteceu há cerca de 170 anos com o derrube das muralhas da cidade. A crescente consciencialização da sociedade para um necessário equilíbrio do progresso com o ambiente e o legado histórico dos locais onde vivemos obriga-nos a reflectir na responsabilidade de cuidarmos daquilo que é de todos e não apenas daquilo que é nosso.

Enquanto não exigirmos uma nova linguagem urbanística, assente quer na qualidade técnica, quer na qualidade estética, e em harmonia com a criação de mais espaços verdes, a política feudalista de construtores civis vai continuar a vingar impunemente. Se faz falta quem saiba remediar os problemas do passado, mais falta faz quem saiba construir uma nova cidade.

Há dois anos, a braços com o “chapapote” poluindo as suas zonas costeiras, a Galiza viveu momentos de intensa revolta pela injustiça ambiental e política de que foi vítima. E todos os galegos não deixaram de defender com acérrimo a sua causa, exigindo ao governo espanhol a verdade dos factos. Hoje socorro-me do granito da região, que aqui simboliza a persistência que nos caracteriza, para nele estender uma faixa azul, aludindo à indiferença crónica perante as causas pelas quais somos todos responsáveis, sejam elas ambientais, sociais, políticas ou culturais. A modernização da cidade e a expansão da sua malha urbana não justificam que se cometa todo o tipo de atropelos urbanos e paisagísticos. O dever de protegermos o que é nosso obriga-nos a gritar bem alto: Mais disto NÃO!

[n] Jorge Costa

E como um parque botânico se vai transformar na variante sul à cidade…
A mais que provável passagem da variante sul à cidade bem no interior do Parque Botânico da Escola Superior Agrária de Castelo Branco (ver artigo publicado em
http://jornal.publico.pt/2004/06/24/LocalCentro/LC23.html) é outro exemplo esclarecedor de que quando há que encontrar os culpados pela degradação do nosso património natural, histórico ou cultural, as responsabilidades vão sendo sacudidas de instituição para instituição, acabando o passar do tempo por impor a justiça do esquecimento. Se as palavras não forem suficientemente esclarecedoras do que aí vem – e que ainda está a tempo de ser impedido por todos nós, desde que firmemente unidos por essa causa –, que o sejam as imagens.

ACTUALMENTE

O QUE VIRÁ DEPOIS...

sexta-feira, junho 11, 2004

Parque Botânico da ESA de Castelo Branco: uma «ilha de fauna» às portas da cidade

Debaixo do solo, a abundante vegetação do Parque Botânico da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, laboratório vivo de alunos e técnicos, devora o que resta de uma antiga lixeira. Agora que a nova variante sul à cidade ameaça rasgar ao meio aquele espaço, todos duvidam que a fauna e flora ali refugiadas consigam libertar-se das garras do asfalto.

Ao percorrermos o emaranhado de terrenos do Parque Botânico da Escola Superior Agrária de Castelo Branco (ESACB), descobrimos um nicho de biodiversidade vegetal que serve de refúgio a inúmeros mamíferos, répteis, anfíbios e insectos. Aos ouvidos sobressai o canto de algumas aves, mas dizem os especialistas que por ali também vivem coelhos, cágados, sapos, raposas, saca-rabos, ginetos e até lontras.
A história do parque remonta a 1983, quando os 15 hectares da antiga lixeira da cidade, que funcionou até à década de 1970, foram povoados pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com seis mil árvores e arbustos de 90 espécies diferentes, depois de removidos os detritos e criadas as áreas de afloramento. A ajuda veio também de jardins botânicos como o de Lisboa, que doaram sementes e propágulos à então nova instituição de ensino superior.
Decorridas duas décadas, algumas árvores morreram devido à toxicidade do terreno, mas continuam de pé. «Aqui só se abatem as árvores que têm problemas patogénicos graves», explica Luísa Nunes, docente e responsável pelo Parque Botânico da ESACB. «Mesmo as doentes são muito úteis para algumas cadeiras». Espalhadas pelos 22 hectares da Quinta da Senhora de Mércoles encontram-se agora cerca de nove mil árvores de mais de 100 espécies diferentes, desde os ciprestes, aceres, palmeiras e bétulas, a outras mais raras como os cedros do médio oriente, ou exemplares autóctones como o carvalho das beiras, muito sacrificado na produção de lenha.
Para o visitante, a melhor forma de apreciar a beleza do conjunto é utilizar o circuito de manutenção, inaugurado em Março de 2002, e que nos seus dois quilómetros percorre grande parte do Parque Botânico, sendo mais procurado na primavera e no verão.

Um laboratório vegetal vivo
As plantas semeadas começam o seu ciclo de vida nos viveiros, mas as que são produzidas por estacaria passam primeiro pela estufa. Aqui espera-as um substrato de terra que inclui esferovite e leca para aumentar o seu ritmo de crescimento. A venda de muitas das plantas, grande parte delas ornamentais, é a única fonte de receitas do parque. A média de 500 euros mensais ajuda apenas a atenuar as dificuldades financeiras da estrutura. «Se pudéssemos produzir mais, vendíamos tudo», acrescenta Luísa Nunes. No entanto, no meio de tantas plantas, protegidas por redes da luz e da geada, existem muitos exemplares exóticos e que não estão à venda. «Nós também somos coleccionadores», contrapõe Carlos Grácio, um dos dois técnicos do Parque Botânico, assegurando que o viveiro não é um supermercado de plantas, mas um laboratório vegetal vivo.
Apesar da falta de recursos, a responsável pelo parque pretende criar o Jardim das Borboletas, atraindo diversas espécies a partir da instalação de plantas ricas em néctar. Projectada está também a reprodução em cativeiro de borboletas tropicais a importar do Reino Unido. Um jardim de cactos e um painel informativo sobre os circuitos, plantas e animais existentes no local são outros projectos em mente. Lamentando o facto de grande parte da comunidade desconhecer ainda o parque, Luísa Nunes não deixa de aplaudir o trabalho ali desenvolvido por técnicos e alunos. «Transformou-se um sítio completamente degradado num espaço bonito», recorda, pelo que espera que se consigam os meios necessários.
Mas à medida que a cidade cresce, aumenta a pressão urbana sobre o Parque Botânico da ESACB. Em 1994, ano em que fora proposta à autarquia a abertura ao público daquele espaço, era aprovado o Plano Director Municipal do concelho. No documento estabelecia-se a passagem da variante sul de Castelo Branco pelo coração do parque, prevendo-se que as obras arranquem ainda em 2004. «Se abrirem uma ferida na zona onde temos os melhores exemplares, vão inviabilizar o habitat e os animais não terão para onde ir», assegura Luísa Nunes. «Se este parque se situasse em Inglaterra, por exemplo, onde se dá prioridade à preservação dos habitats de que defendem as espécies, este problema não se colocava». José Monteiro, director da ESACB, considera que de momento há que «promover o entendimento entre a escola e a Câmara Municipal», já que a autarquia, desde que o assunto voltou a ser discutido em 2001, garantiu que tudo irá fazer para «reduzir à expressão mínima possíveis consequências da construção da variante».

O fantasma da variante
Para além de uma «ilha de fauna», como lhe chama a responsável pelo parque, este é também o local de trabalho dos alunos do curso de Engenharia Florestal, que aqui assistem a muitas aulas práticas, ministradas ao ar livre, e a outras semi-práticas, que funcionam num pequeno anfiteatro, mobilado com cadeiras adquiridas ao Tivoli de Lisboa. «A estrada vai destruir um espaço muito útil para nós», refere Sérgio Moura, aluno do 3ºano daquele curso da ESACB e um dos muitos que dedicam ao parque algumas horas do seu tempo livre. «Uma coisa é estarmos a olhar para os livros, outra é vermos aqui as espécies. Se pudéssemos, vínhamos cá todos os dias», adianta o estudante, arrancando a erva a um canteiro. Opinião semelhante tem Eduardo Afonso. «Dantes tínhamos de ir para a vacaria. Agora andamos de enxada na mão». Fazendo tudo o que é necessário para manter o espaço – semear, plantar, podar, mondar, sachar ou regar –, os alunos aplicam no terreno os conhecimentos adquiridos durante as aulas. «Este é um dos únicos sítios que temos para aprender. Aqui há espécies que não existem em mais nenhum sítio da cidade e da região», comenta Eduardo Afonso. Por cada dia de trabalho voluntário, num gesto simbólico de incentivo aos estudantes, a ESACB oferece uma refeição. «Acho que os alunos têm muito boa vontade. Falta é pessoal especializado», lamenta Ângela Antunes, técnica no parque.
Com o previsível aumento da poluição sonora, Carlos Grácio garante que a fauna existente no parque irá diminuir. «Isto para nós é uma sala de aulas. A estrada vai-nos destruir o local onde estudamos», sustenta o técnico da ESACB, criticando a forma discreta como foram colocadas as primeiras estacas indicando o traçado da via. «Criámos aqui uma cidade vegetal e animal. Esta deve ser a maior área verde recreativa de Castelo Branco, que está muito pobre em espaços verdes. Falta coragem política para preservar o que já existe», conclui Carlos Grácio. A responsável pelo parque reforça os argumentos. «Não há em Portugal nenhuma instituição do ensino superior com um parque com estas características», considera Luísa Nunes. «Isto é um luxo ao nível do ensino da botânica, da engenharia florestal e da ecologia».

[n] Jorge Costa
 
(artigo publicado na revista Raia, nº57 - Junho 2004)

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Centro de Recuperação de Animais Selvagens: voluntários do CERAS dão asas à liberdade


Na Escola Superior Agrária de Castelo Branco, o CERAS acolhe dezenas de animais selvagens que ali são tratados antes de serem devolvidos à natureza. Únicos sobreviventes de um envenenamento que vitimou três dezenas de grifos, três deles regressaram aos céus.


Um ambiente calmo e verdejante, interrompido ocasionalmente por um curto bater de asas, rodeia este refúgio natural, situado no interior da Escola Superior Agrária (ESA) de Castelo Branco. A bicharada aqui albergada, ainda que em convalescença, teima em escutar o instinto. Assim se dá uma segunda oportunidade às aves selvagens que por qualquer razão tiveram o infortúnio de ver a sua vida ameaçada por um acidente ou uma doença. E várias mãos ali estão para assegurar que esse reencontro com a liberdade se cumpra o mais depressa possível. Fruto de um projecto conjunto entre o núcleo de Castelo Branco da Quercus e o núcleo de ecologia da Associação de Estudantes da ESA, desde 1999 que o Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco (CERAS) se preocupa em recuperar animais selvagens e reproduzir espécies ameaçadas em cativeiro. Para o efeito, as instalações do centro, situadas no interior da ESA, possuem um parque de voo, salas de muda e recuperação, mais de uma dezena de jaulas de quarentena, um parque com lago para garças e cegonhas, recintos para mamíferos, uma enfermaria e um biotério (local onde é feita a criação de ratos que irão servir de alimento vivo às aves). Contas feitas, o CERAS acolhe mais de 60 animais por ano, número que tem vindo a aumentar graças à divulgação deste local. Por entre os cerca de 400 bichos que já por ali passaram figuram, entre outros, ouriços, raposas e lontras.
Ligada ao centro desde o seu arranque, Carla Pereira - que ainda se lembra do tempo em que os seus colegas apenas podiam tratar destes animais nas suas casas - é aluna do 4ºano do curso de Ordenamento de Recursos Naturais, e trabalha no CERAS com um equipa de 15 alunos e um veterinário. “Tenho cadeiras onde estudo a biologia e a morfologia dos animais, mas desta forma podemos começar a aplicar os conhecimentos ou aprender outros novos. A prática é muito mais gratificante que a teoria”, confessa a estudante de 29 anos, que é também professora de educação ambiental na Escola da Mata. Tarefa ingrata, não fosse a boa vontade de todos os que colaboram com o CERAS. “A escola cede-nos o espaço, as infra-estruturas, o apoio logístico e algum material. O resto temos nós de conseguir”. E como todas as ajudas são poucas, há que recorrer ao voluntariado. “Há gente que nos apoia com dinheiro ou meios logísticos, mas também já recebemos pessoas através do programa de voluntariado europeu”. Acrescentem-se ainda alguns patrocínios, alimentos oferecidos por diversas lojas, o apoio oficial do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) e a colaboração de uma clínica, que trabalha em parceria com o CERAS.
Como principais limitações ao funcionamento do centro, Carla Pereira aponta a falta de verbas e de meios. “Precisamos de uma enfermaria maior e de melhor equipamento. Queríamos construir dois túneis de voo maiores para aves de grande porte. Para isso são precisos materiais de construção civil, mão-de-obra especializada e mais voluntários”. Os vazios legais também fazem parte dos protestos apontados por aquela responsável do CERAS. “A lei é pouco abrangente e não contempla os centros de recuperação. Deveria haver mais protecção para espécies selvagens”.

Cuidados prestados aos animais
Assim que um animal chega ao centro, é preenchida uma ficha de acompanhamento onde se identifica a espécie e são analisadas as causas de entrada. Regra geral, tratam-se de aves de rapina órfãs, outras foram pilhadas dos seus ninhos, atropeladas, envenenadas ou mesmo atingidas a tiro, e que na maioria das vezes são recolhidas e entregues pelas brigadas verdes do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA). Em todos os casos, o animal fica sempre um dia de quarentena. “Se tiver alguma lesão ou fractura, são-lhe administrados os cuidados médicos e fica num pequeno espaço até recuperar. Se não conseguir comer sozinho, é alimentado a bico”, refere Carla Pereira. Assim que estabiliza, a ave passa para a zona de recuperação, um local maior onde se observa a sua evolução. “Se está a comer sozinha e a mobilidade já for boa, passa para as mudas ou túneis de voo, onde lhe damos um alimento vivo para treinar o voo e vermos se está a caçar”. Durante todo este processo é importante que haja o mínimo de contacto com o animal para que este não se habitue à presença humana, caso contrário não conseguirá sobreviver no seu meio, acabando por ir parar a um centro de irrecuperáveis. A reabilitação pode durar algumas semanas, variando de caso para caso. “Há animais com as penas das asas cortadas que precisam de ficar cá um ano porque temos de esperar pela muda da pena”. Antes do seu regresso à natureza, a ave é medida, pesada e anilhada para futura identificação, informação que é enviada para uma base de dados nacional. “Se for capturada de novo, saberemos que já esteve num centro de recuperação”, assegura a responsável do CERAS. “Quando vamos libertar o animal, andamos nesse espaço durante uma semana ou mais para ver se ele se encontra bem”. Tão importante como a ave é o equilíbrio do ecossistema a que o animal irá ser devolvido. “Nós aqui estamos a recuperar as aves, mas também temos de nos preocupar com o meio onde estas vão ser inseridas de novo. Por causa dos incêndios do ano passado, muitos habitates estão destruídos e há pouca disponibilidade de alimento”, alerta a estudante.

Apadrinhar uma ave
O estudo da fauna selvagem e a promoção da educação ambiental, sensibilizando as pessoas para os problemas dos animais selvagens, são também parte do trabalho desenvolvido pelo CERAS. “Dos adultos temos receptividade, mas é muito mais fácil incutir o gosto pela conservação da natureza junto dos mais novos. As crianças empenham-se mais nesta tarefa e os próprios adultos motivam os mais pequenos”, adianta Carla Pereira. Para além das campanhas de sensibilização promovidas pelo centro, outra forma encontrada para envolver a sociedade na recuperação dos animais é o apadrinhamento das aves. “A pessoa pode escolher entre as espécies que há ou simplesmente apadrinhar a que mais necessita, contribuindo com o que pode, seja dinheiro, alimentação, logística ou o que nós precisarmos”. Neste caso, o CERAS garante que o «padrinho» será sempre informado sobre o acompanhamento que o centro faz do animal, tendo o privilégio de o poder libertar assim que a ave esteja restabelecida. E ainda que já não restem muitos animais para apadrinhar, os apoios são sempre bem vindos. “Ainda temos uma águia calçada e um mocho galego que não têm padrinhos, mas todos os dias vão entrando animais novos”, assegura a responsável do centro.
Dos anos que esteve ligada ao Centro de Recuperação de Animais Selvagens, Carla Pereira guarda na memória experiências inesquecíveis como o primeiro animal que acompanhou e devolveu à natureza: uma coruja do mato. “Quando é a época das cegonhas treinarem o primeiro voo, a maior parte falha e chegamos a juntar aqui vinte”, conta a estudante, lembrando histórias que terminaram mal. “O envenenamento dos grifos foi a pior experiência que tivemos no centro de recuperação. Tentámos fazer tudo para os salvar e não conseguimos. Morreram trinta e tal animais. É muito triste e duro ver um animal morrer depois da fase de recuperação”.

[n] Jorge Costa
 
(artigo publicado no jornal Povo da Beira, nº522 - 10 de Fevereiro de 2004)