Centro de Recuperação de Animais Selvagens: voluntários do CERAS dão asas à liberdade
Na Escola Superior Agrária de Castelo Branco, o CERAS acolhe dezenas de animais selvagens que ali são tratados antes de serem devolvidos à natureza. Únicos sobreviventes de um envenenamento que vitimou três dezenas de grifos, três deles regressaram aos céus.
Um ambiente calmo e verdejante, interrompido ocasionalmente por um curto bater de asas, rodeia este refúgio natural, situado no interior da Escola Superior Agrária (ESA) de Castelo Branco. A bicharada aqui albergada, ainda que em convalescença, teima em escutar o instinto. Assim se dá uma segunda oportunidade às aves selvagens que por qualquer razão tiveram o infortúnio de ver a sua vida ameaçada por um acidente ou uma doença. E várias mãos ali estão para assegurar que esse reencontro com a liberdade se cumpra o mais depressa possível. Fruto de um projecto conjunto entre o núcleo de Castelo Branco da Quercus e o núcleo de ecologia da Associação de Estudantes da ESA, desde 1999 que o Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco (CERAS) se preocupa em recuperar animais selvagens e reproduzir espécies ameaçadas em cativeiro. Para o efeito, as instalações do centro, situadas no interior da ESA, possuem um parque de voo, salas de muda e recuperação, mais de uma dezena de jaulas de quarentena, um parque com lago para garças e cegonhas, recintos para mamíferos, uma enfermaria e um biotério (local onde é feita a criação de ratos que irão servir de alimento vivo às aves). Contas feitas, o CERAS acolhe mais de 60 animais por ano, número que tem vindo a aumentar graças à divulgação deste local. Por entre os cerca de 400 bichos que já por ali passaram figuram, entre outros, ouriços, raposas e lontras.
Ligada ao centro desde o seu arranque, Carla Pereira - que ainda se lembra do tempo em que os seus colegas apenas podiam tratar destes animais nas suas casas - é aluna do 4ºano do curso de Ordenamento de Recursos Naturais, e trabalha no CERAS com um equipa de 15 alunos e um veterinário. “Tenho cadeiras onde estudo a biologia e a morfologia dos animais, mas desta forma podemos começar a aplicar os conhecimentos ou aprender outros novos. A prática é muito mais gratificante que a teoria”, confessa a estudante de 29 anos, que é também professora de educação ambiental na Escola da Mata. Tarefa ingrata, não fosse a boa vontade de todos os que colaboram com o CERAS. “A escola cede-nos o espaço, as infra-estruturas, o apoio logístico e algum material. O resto temos nós de conseguir”. E como todas as ajudas são poucas, há que recorrer ao voluntariado. “Há gente que nos apoia com dinheiro ou meios logísticos, mas também já recebemos pessoas através do programa de voluntariado europeu”. Acrescentem-se ainda alguns patrocínios, alimentos oferecidos por diversas lojas, o apoio oficial do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) e a colaboração de uma clínica, que trabalha em parceria com o CERAS.
Como principais limitações ao funcionamento do centro, Carla Pereira aponta a falta de verbas e de meios. “Precisamos de uma enfermaria maior e de melhor equipamento. Queríamos construir dois túneis de voo maiores para aves de grande porte. Para isso são precisos materiais de construção civil, mão-de-obra especializada e mais voluntários”. Os vazios legais também fazem parte dos protestos apontados por aquela responsável do CERAS. “A lei é pouco abrangente e não contempla os centros de recuperação. Deveria haver mais protecção para espécies selvagens”.
Cuidados prestados aos animais
Assim que um animal chega ao centro, é preenchida uma ficha de acompanhamento onde se identifica a espécie e são analisadas as causas de entrada. Regra geral, tratam-se de aves de rapina órfãs, outras foram pilhadas dos seus ninhos, atropeladas, envenenadas ou mesmo atingidas a tiro, e que na maioria das vezes são recolhidas e entregues pelas brigadas verdes do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA). Em todos os casos, o animal fica sempre um dia de quarentena. “Se tiver alguma lesão ou fractura, são-lhe administrados os cuidados médicos e fica num pequeno espaço até recuperar. Se não conseguir comer sozinho, é alimentado a bico”, refere Carla Pereira. Assim que estabiliza, a ave passa para a zona de recuperação, um local maior onde se observa a sua evolução. “Se está a comer sozinha e a mobilidade já for boa, passa para as mudas ou túneis de voo, onde lhe damos um alimento vivo para treinar o voo e vermos se está a caçar”. Durante todo este processo é importante que haja o mínimo de contacto com o animal para que este não se habitue à presença humana, caso contrário não conseguirá sobreviver no seu meio, acabando por ir parar a um centro de irrecuperáveis. A reabilitação pode durar algumas semanas, variando de caso para caso. “Há animais com as penas das asas cortadas que precisam de ficar cá um ano porque temos de esperar pela muda da pena”. Antes do seu regresso à natureza, a ave é medida, pesada e anilhada para futura identificação, informação que é enviada para uma base de dados nacional. “Se for capturada de novo, saberemos que já esteve num centro de recuperação”, assegura a responsável do CERAS. “Quando vamos libertar o animal, andamos nesse espaço durante uma semana ou mais para ver se ele se encontra bem”. Tão importante como a ave é o equilíbrio do ecossistema a que o animal irá ser devolvido. “Nós aqui estamos a recuperar as aves, mas também temos de nos preocupar com o meio onde estas vão ser inseridas de novo. Por causa dos incêndios do ano passado, muitos habitates estão destruídos e há pouca disponibilidade de alimento”, alerta a estudante.
Apadrinhar uma ave
O estudo da fauna selvagem e a promoção da educação ambiental, sensibilizando as pessoas para os problemas dos animais selvagens, são também parte do trabalho desenvolvido pelo CERAS. “Dos adultos temos receptividade, mas é muito mais fácil incutir o gosto pela conservação da natureza junto dos mais novos. As crianças empenham-se mais nesta tarefa e os próprios adultos motivam os mais pequenos”, adianta Carla Pereira. Para além das campanhas de sensibilização promovidas pelo centro, outra forma encontrada para envolver a sociedade na recuperação dos animais é o apadrinhamento das aves. “A pessoa pode escolher entre as espécies que há ou simplesmente apadrinhar a que mais necessita, contribuindo com o que pode, seja dinheiro, alimentação, logística ou o que nós precisarmos”. Neste caso, o CERAS garante que o «padrinho» será sempre informado sobre o acompanhamento que o centro faz do animal, tendo o privilégio de o poder libertar assim que a ave esteja restabelecida. E ainda que já não restem muitos animais para apadrinhar, os apoios são sempre bem vindos. “Ainda temos uma águia calçada e um mocho galego que não têm padrinhos, mas todos os dias vão entrando animais novos”, assegura a responsável do centro.
Dos anos que esteve ligada ao Centro de Recuperação de Animais Selvagens, Carla Pereira guarda na memória experiências inesquecíveis como o primeiro animal que acompanhou e devolveu à natureza: uma coruja do mato. “Quando é a época das cegonhas treinarem o primeiro voo, a maior parte falha e chegamos a juntar aqui vinte”, conta a estudante, lembrando histórias que terminaram mal. “O envenenamento dos grifos foi a pior experiência que tivemos no centro de recuperação. Tentámos fazer tudo para os salvar e não conseguimos. Morreram trinta e tal animais. É muito triste e duro ver um animal morrer depois da fase de recuperação”.
[n] Jorge Costa
(artigo publicado no jornal Povo da Beira, nº522 - 10 de Fevereiro de 2004)
